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IPCA de 2017: não basta ser bom

Diz o ditado que não basta ser bom, também tem de ter sorte. De fato os brasileiros queimaram em 2017 boa parte do seu estoque de boa fortuna no campo econômico. O PIB subiu mais que esperado por conta de um choque positivo vindo da agricultura e este choque de oferta se espraiou de maneira benigna no grupo alimentação que, representando praticamente um quarto de todo o índice de preço ao consumidor oficial, jogou para ligeiramente abaixo do piso da meta o IPCA do ano que passou.

Não foi pouca a contribuição benigna deste grupo. Para se ter uma ideia do ajuste, entre 2011 e 2016, este grupo subiu em média mais de 9% ao ano. Já em 2017, tivemos deflação de 1,87%. Como Selic não é dança da chuva, podemos apenas creditar isso ao acaso que nos sorriu, mas que não podemos dar como certo ao longo deste ano que começa. Justamente o grupo alimentação foi o que puxou para cima o IPCA no final de 2017 com alta de 0,54% no mês contra uma queda de 0,38% no mês anterior e os dados antecedentes dos preços de alimentos capturados no atacado pelo IGP-DI apontam mais uma alta de 0,8%, com destaque para elevação de bovinos.

Outra parte da boa sorte brasileira com a inflação do ano que passou pode ser creditada a própria desaceleração do consumo da economia. Como costumo brincar: “a boa notícia é que está ruim”  – depois de anos subindo acima dos 8%, o grupo serviços – cujo principal insumo é o custo da mão de obra – fechou o ano abaixo de 5%.

Alguns economistas criticam o Banco Central por ter exagerado na dose da Selic e que haveria até espaço para um corte maior dado os fatores acima citados, mas a Autoridade Monetária sabe que está lidando com elementos que não estão no seu controle (como alimentos) ou cíclicos (como os serviços), logo optou-se pelo conservadorismo monetário. É fácil dizer agora que erraram, mas há o que se preocupar lá na frente.

Como vimos, os alimentos caíram na sorte e estão subindo na base da comparação. Serviços podem parar de se comportar á medida que o desemprego caia mais fortemente e se reflita nos salários. Mas há outra fonte de preocupação no mapa que são os preços administrados que causaram tanta dor de cabeça em 2015.

A Petrobrás, com sua nova política de preços, parou de “aliviar” para a população de maneira difusa via controle de preços e agora, ao equiparar preços domésticos aos do mercado internacional, praticamente dolarizou parte relevante da inflação doméstica. A gasolina subiu o ano que passou 10% e o botijão de gás – que atinge particularmente a parte mais carente da sociedade – subiu outros 16%. Mantido isso constante teremos que observar com lupa a evolução do preço de administrados este ano.

A questão que fica no ar é que 2017 foi atípico e 2018 já nasceu velho: sabemos que os juros já vão subir no final deste ano, provavelmente logo após as eleições, assim há pouco o que comemorar. O BC já sinalizou que em 2019 irá subir a Selic, mas o mercado por si mesmo já fez subir as taxas para antes disso. O BC pode até cortar um pouco mais a Selic neste início de ano, mas mirando antes a situação do crédito – em especial para as empresas que precisam desalavancar – que por conta de um prognóstico benigno para a inflação deste ano que não deve explodir, é verdade.

Fonte: Estadão